terça-feira, 5 de julho de 2016

Cartas à Cristiano - Carta Dois

Sorocaba, 14 de Junho de 2016

    Olá, 
          Aqui estou eu, escrevendo mais uma daquelas cartas. Como você está? Eu não estou tão bem. Hoje é dia 14 de Junho, ou seja, completam dois anos que eu me cortei pela primeira vez. Desde aquele dia, eu nunca mais fui a mesma, sabe? Aquele momento ficou congelado no tempo, mas a vida segue seu curso, em um interminável ciclo de dores, tristezas, feridas... E prazeres, alegrias, curas para as feridas. O meu coração ferido, se curou, e agora, aparentemente, está prestes a ser ferido novamente. Dessa vez por você.
    Eu estava feliz, estava em paz, finalmente, após tanto tempo. Mas você surgiu, com suas palavras, seus sorrisos, seus cuidados e com o seu amor a Deus, e foi quase impossível que eu não me apaixonasse. Eu até resistir durante um tempo, mas logo cedi aos encantos seus, aos efeitos que causava em meu coração, que começava a bater descompassado. Não há razão para as coisas do coração, sabia? Ele não é racional, inteligente ou sequer consegue tomar todas as decisões. E ele se machuca, ele dói, ele tampa os olhos da mente e ilude ela, tudo isso para que ele possa ter o que quer... Mesmo que isso signifique se ferir. Seria tão mais fácil se ele fosse racional, ou não iludisse ao resto do corpo!...
    O dia de hoje, apesar de simbolizar o que simboliza, deveria ser de alegria. Nesse dia, eu queria poder celebrar a paz e o fim dos cortes, apesar de que há dois anos, essa tenha sido uma data de tanta dor, mágoa e pesar. Dizem que uma data só é ruim se queremos assim torná-la. E adivinha? Não é assim que funciona. Minha “amiga” que o diga. Alça da minha mochila que o diga! Eu que o diga, e o mundo também”...
    É incrível como minha mente nunca para, sabe? Eu não tenho paz de meus sentimentos e pensamentos há muito tempo. Esse era o único bom lado da medicação que eu tomava: ela limpava minha mente. Para qualquer canto da minha mente e de meu coração para onde eu olhe, sempre há medo, uma caixa de surpresas, incógnitas, muitos “E se?”, muita falta de coragem, uma voz que me dizendo tudo o que eu NÃO preciso saber, como por exemplo, o quanto sou inútil, covarde, uma pessoa sem perspectivas de vida e por aí vai. Só que você consegue limpar tudo, e quando falo com você, quando estou com você, tudo é limpo e calmo.
    Sabe, eu estou cansada. Cansada de viver um dia após o outro com medos, grande parte deles os quais eu nem sei de onde vêm. Estou cansada de não ter um par de braços, um coração ou um aconchego para o qual correr quando estou exausta, ou triste, ou simplesmente preciso de algo além de mim, quando estou cansada de um longo dia, quando estou me sentindo miserável, ou ainda quando apenas preciso saber que existe outro coração que bate pelo meu.  Um coração que se apressa quando sua mente pensa em mim, uma pessoa que a cada dia se preocupa comigo. Sim, eu sei que tenho minha família, mas eu preciso de algo além. Preciso de alguém que me complete, e Cristiano, sabe o quanto eu quero que esse alguém seja você? Por hora, acho que é isso. Agradeça a essa folha de papel que sempre está disposta a receber meus devaneios, sonhos, medos e desabafos, coisas que talvez jamais cheguem a você.
    Por aqui me despeço, Cristiano. Fique com Deus, e meu coração você já tem, devo lembrar-te. Beijos, querido!
Liliane, 14.06.2016

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